segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Ciclo de retenção pode elevar o preço do boi gordo nos próximos meses

 


O mercado futuro do boi gordo pode estar operando com cautela excessiva em suas projeções para o decorrer de 2026 aponta a análise da consultoria HN Agro. Ao cruzar a cotação média de janeiro com o histórico de preços do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), especialmente em anos marcados pela retenção de fêmeas, o consultor Hiberville Neto aponta que há espaço para valorizações superiores às que estão precificadas atualmente na B3, tanto para o mês de maio quanto para outubro.

Para traçar esse cenário, Neto utilizou como base a cotação média da arroba em janeiro, estabelecida em R$ 318,85 pelo indicador Cepea. Em comparação, os contratos futuros negociados na manhã de sexta-feira, 16 de janeiro, apontavam para R$ 318,25 na liquidação de maio e R$ 334,00 para outubro. A avaliação sugere que, embora o mercado projete uma leve queda para o fim do primeiro semestre e uma alta moderada para o segundo, o comportamento histórico do ciclo pecuário conta uma história diferente.

Entenda o ciclo: Retenção x Descarte

Para compreender a projeção, é fundamental entender o conceito de ciclo pecuário. A análise dividiu os anos entre 2000 e 2025 em dois grupos: Anos de Descarte: Quando o produtor envia mais fêmeas (vacas e novilhas) para o abate, aumentando a oferta de carne no curto prazo e pressionando preços para baixo. Anos de Retenção: Quando o pecuarista decide segurar as fêmeas na fazenda para procriação. Isso reduz a oferta de animais para abate e tende a valorizar a arroba. A expectativa para 2026 é de um ano de retenção, o que significa menor disponibilidade de gado para a indústria frigorífica.

O comportamento dos preços em maio

O mês de maio é tradicionalmente conhecido como o pico da safra do boi gordo. É o momento em que, geralmente, há maior oferta de animais terminados a pasto, antes da seca se intensificar. Historicamente, nos anos de descarte, o preço da arroba costuma recuar cerca de 5,7% entre janeiro e maio devido ao excesso de oferta. No entanto, a análise da HN Agro destaca um dado curioso: nos anos de retenção, a média histórica mostra uma valorização de 2,7% no período, contrariando a lógica de baixa da safra.

Se essa média histórica se confirmasse, o preço em maio poderia atingir R$ 327,55/@. Contudo, o mercado futuro atual precifica uma queda de 0,2% (R$ 318,25/@), alinhando-se mais à média geral do que à realidade específica de um ano de retenção.

Outubro e a entressafra

A diferença entre a projeção do mercado e o histórico se acentua em outubro, período típico de entressafra, quando a oferta de gado de pasto é escassa e o mercado depende do boi confinado. Os dados mostram que, na média geral (todos os anos), a alta entre janeiro e outubro é de 6,6%. Nos anos de retenção, essa valorização salta para uma média de 13,2%.

Caso o padrão de retenção se repita em 2026, a arroba poderia alcançar patamares próximos a R$ 360,93 em outubro. Hoje, a tela da B3 aponta para R$ 334,00, o que a consultoria classifica como um “patamar modesto” frente à expectativa de menor produção de carne bovina e redução da disponibilidade interna.

Fatores econômicos e gestão de risco

Além da dinâmica de oferta, a HN Agro pondera sobre a demanda. O cenário econômico apresenta pontos de atenção, mas o aumento de gastos governamentais e o calendário político (“festa da democracia”) tendem a injetar liquidez e sustentar o consumo no curto prazo, mesmo que isso traga preocupações fiscais futuras.

Diante desse quadro, a recomendação para o produtor rural é de cautela estratégica. A consultoria avalia que, embora o cenário seja positivo, é essencial garantir margens. A orientação é buscar ferramentas de proteção que permitam aproveitar eventuais altas, como o uso de “puts” (seguro de baixa) ou contratos a termo com preço mínimo. Dessa forma, o pecuarista se protege de quedas inesperadas, mas mantém a exposição para capturar as valorizações que o histórico de retenção sugere serem prováveis.

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